Como a queda da Selic começa a destravar o mercado imobiliário

O que as projeções para 2026 indicam sobre crédito, demanda e ritmo de vendas

Pedrosa, Carlos.

1/5/20253 min ler

Depois de um ciclo longo de juros altos, 2026 começa a ser lido como um ano de transição: menos travado do que os últimos períodos, mas ainda exigente. A discussão sobre Selic, inflação e política monetária voltou ao centro das atenções, e isso tem consequência direta no setor imobiliário principalmente porque o imóvel é um produto que depende de prazo, crédito e confiança.

O ponto principal não é “otimismo automático”. É entender que, quando o custo do dinheiro começa a ceder, o mercado imobiliário costuma reagir antes de outros setores, ainda que de forma gradual.

Por que a Selic destrava o imobiliário (mesmo sem cair muito)

A Selic não é a taxa do financiamento em si, mas influencia o custo do crédito no sistema. Em geral, quando o ciclo de juros muda de direção, acontece uma sequência previsível:

  • bancos recalibram oferta e apetite por crédito

  • as condições de financiamento começam a melhorar aos poucos

  • o comprador volta a simular, comparar e decidir com mais confiança

O destravamento começa no comportamento, antes de aparecer forte nos números.

Inflação e “horizonte relevante”: o detalhe que muda a leitura do mercado

Além do nível de juros, a direção da inflação esperada importa muito. Quando projeções inflacionárias ficam mais comportadas no horizonte em que a política monetária é calibrada, aumenta a chance de um cenário menos restritivo ao longo do tempo.

Traduzindo: não é só “Selic menor”, é previsibilidade. E previsibilidade é o que permite crédito de longo prazo funcionar com mais normalidade.

Onde o efeito aparece primeiro: crédito e demanda represada

O primeiro impacto concreto tende a ocorrer em segmentos mais dependentes de financiamento. Com taxa mais amigável, mesmo que ainda alta, ocorre uma reativação de demanda que estava “no quase”:

  • famílias que voltam a caber na parcela

  • compradores que saem do aluguel por custo-benefício

  • investidores que voltam a considerar renda e liquidez

Esse movimento não cria boom imediato, mas melhora o fluxo.

“Novo ciclo” não significa mercado fácil

Mesmo com juros em queda, há travas que continuam existindo:

  • renda real e emprego ainda determinam capacidade de compra

  • bancos podem manter critérios mais conservadores por um período

  • preços e estoque variam muito por cidade e segmento

Por isso, o que se projeta é um ciclo mais saudável e gradual, não uma virada instantânea.

Impactos por segmento: quem sente primeiro e quem sente depois

  • Habitação popular e média renda: tende a reagir mais cedo, porque depende diretamente de crédito.

  • Média-alta: melhora no custo do dinheiro ajuda, mas a decisão segue mais seletiva.

  • Alto padrão: sofre menos com juros e mais com confiança, oportunidade e estratégia patrimonial.

O mercado pode aquecer em um lado enquanto outro segue lento, e isso é normal.

O que muda na estratégia de quem vende e de quem investe

Para profissionais do setor, a mudança mais relevante é o retorno do financiamento como protagonista da decisão:

  • o comprador volta a fazer conta (e a conta passa a fechar com mais frequência)

  • o corretor precisa dominar simulação, prazos e cenários sem prometer demais

  • incorporadoras retomam leitura de lançamento com mais segurança, mas com cautela

Quem se diferencia nesse momento é quem informa com clareza e não vende “euforia”.

Conclusão

A queda da Selic, combinada com expectativas de inflação mais controladas, pode não transformar 2026 em um ano de explosão. Mas tende a reduzir fricções e isso é exatamente o que “destrava” o mercado imobiliário: crédito voltando a circular, decisões voltando a acontecer e uma sensação de previsibilidade voltando ao jogo.

O ciclo muda quando o mercado volta a conseguir planejar.