Tokenização imobiliária: promessa de US$ 4 trilhões ou risco jurídico no Brasil?
Nos últimos meses, a tokenização imobiliária deixou de ser apenas um conceito técnico ligado ao universo cripto e passou a ocupar espaço em grandes veículos econômicos, relatórios de consultorias globais e debates jurídicos no Brasil.
Pedrosa, Carlos.
1/5/20263 min ler


De um lado, projeções otimistas apontam que esse modelo pode criar um mercado global de até US$ 4 trilhões até 2035, segundo a Deloitte. Do outro, juristas e entidades brasileiras alertam para vácuos regulatórios e riscos reais de insegurança jurídica.
Mas, afinal, o que está realmente em jogo, e o que isso significa para o mercado imobiliário hoje?
O que é tokenização imobiliária, na prática?
De forma simples, tokenizar um imóvel significa transformar um ativo físico em representações digitais (tokens) registradas em blockchain. Esses tokens podem representar:
Frações econômicas de um imóvel
Direitos de participação em um empreendimento
Recebíveis, cotas ou contratos ligados ao ativo imobiliário
Na maioria dos casos atuais, o token não representa a propriedade direta do imóvel, mas sim um direito econômico ou contratual relacionado a ele.
Essa distinção é central para entender tanto o potencial quanto os riscos do modelo.
Um mercado trilionário no horizonte
Segundo um relatório recente da Deloitte, a tokenização de ativos do mundo real, com forte peso no setor imobiliário, pode sair de um mercado estimado em menos de US$ 300 bilhões em 2024 para aproximadamente US$ 4 trilhões até 2035.
A consultoria aponta:
Crescimento médio anual em torno de 27%
Adoção inicial em fundos imobiliários, recebíveis e dívidas
Expansão gradual para empreendimentos em desenvolvimento e novos modelos de financiamento
No cenário internacional, a tokenização surge como uma resposta a problemas clássicos do mercado imobiliário: baixa liquidez, altos valores de entrada e processos burocráticos.
E no Brasil? Crescimento sem regulação clara
No Brasil, iniciativas de tokenização imobiliária já estão em operação — mesmo sem um marco regulatório específico. Isso gerou um crescimento rápido, mas também uma série de alertas.
Matérias recentes destacam que, embora o interesse de investidores esteja aumentando, não há hoje respaldo legal para que tokens substituam o registro imobiliário tradicional.
A propriedade de um imóvel no Brasil continua dependendo, obrigatoriamente, do registro em cartório, com fé pública e validade contra terceiros.
O alerta jurídico: onde mora o risco
Um artigo publicado na Consultor Jurídico trouxe um ponto crítico ao debate: muitos modelos de tokenização podem induzir o investidor a acreditar que está adquirindo um imóvel — quando, na prática, está comprando apenas um direito obrigacional ou participação indireta.
O texto destaca ainda que:
Sistemas paralelos de “registro digital” não substituem o cartório
Iniciativas institucionais que tentaram criar tokens imobiliários oficiais foram suspensas judicialmente
Há risco de confusão entre inovação tecnológica e direito real de propriedade
Em outras palavras: tecnologia não cria propriedade por si só.
O que isso muda para o mercado imobiliário?
Para corretores, incorporadoras e investidores, a tokenização:
Não elimina o modelo tradicional de compra e venda
Não substitui escritura e matrícula
Pode abrir espaço para novos formatos de investimento, desde que bem estruturados juridicamente
No curto prazo, o maior impacto está menos na venda direta de imóveis e mais na forma como o mercado fala sobre inovação, acesso e futuro.
Onde entra o audiovisual imobiliário nessa história?
Toda grande transformação tecnológica começa, antes de tudo, como uma narrativa.
Vídeos, conteúdos educativos e reportagens bem produzidas serão essenciais para:
Explicar o que é tokenização sem criar falsas expectativas
Diferenciar investimento financeiro de propriedade imobiliária
Posicionar marcas e profissionais como fontes confiáveis em meio à confusão informacional
No mercado imobiliário, quem comunica melhor, lidera a percepção — especialmente quando o tema é novo, técnico e cercado de ruído.
Tokenização: futuro inevitável, presente cuidadoso
A tokenização imobiliária tem potencial real de crescimento e inovação. Mas, no Brasil, ela ainda caminha sobre um terreno que exige cautela, transparência e boa comunicação.
Mais do que vender promessas, o momento pede educação de mercado.
E esse será, cada vez mais, um diferencial competitivo.
